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3 de out. de 2013

"O Trabalho é a fé que se faz visível"

“Somos simples servidores: fizemos o que devíamos fazer” 
(Lc 17,10) 

Os apóstolos, depois de um tempo de convivência com Jesus, se dão conta de que lhes falta algo para poder compreender as exigências d’Ele. Por isso, suplicam: “aumenta nossa fé”.

Como de outras vezes e como bom “pedagogo”, Jesus não responde diretamente à petição dos apóstolos. Quer dar a entender que a fé não é questão de quantidade, mas de autenticidade. Além disso, a fé não pode ser aumentada a partir de fora; ela tem que crescer a partir de dentro, como o insignificante grão de mostarda que, embora diminuto, contém vida exatamente igual que a maior das sementes.

A fé não é algo que se “tem” ou “não se tem”; a fé é um caminho, é uma “travessia” em direção a largos horizontes; e um desejo eternamente insatisfeito; é uma confiança continuamente renovada, um compromisso sem final.

A fé não é um ato nem uma série de atos,  nem uma adesão a uma série de verdades teóricas que não podemos compreender, mas uma atitude pessoal fundamental e total que imprime uma direção definitiva à existência. Na Bíblia, a fé é equivalente à confiança em uma pessoa, acompanhada da fidelidade.

Nesse sentido, a fé é uma vivência em Deus; por isso não tem nada que ver com a quantidade.

Jesus denuncia a fé dos seus discípulos, que parece frágil, de pouco fôlego, incapaz de manifestar aquela força que muda a vida, o modo de pensar, de sentir e de agir.

A fé supõe o descentramento de si mesmo e o reconhecimento de Deus como centro da própria vida, numa atitude de confiança incondicional; ela abre para o ser humano o horizonte infinito de Deus. Crer significa deixar Deus ser totalmente Deus, ou seja, reconhecê-lo como a única razão e sentido da vida.



É esta experiência de fé que desata as ricas possibilidades latentes em nosso interior. Com a imagem da amoreira que é transplantada, Jesus nos está dizendo que o dinamismo de Deus está já atuante em cada um de nós e nos possibilita viver profundas mudanças (sair de um lugar estreito, limitado... e lançar-se a outro lugar amplo, desafiante...). A fé é experiência expansiva da própria vida, movida pela graça de Deus. Aquele que tem confiança em Deus, poderá desatar toda essa energia de vida.

Essa vida é o que de verdade importa. Por isso, crer em Deus é também confiar em cada ser humano e em suas possibilidades para alcançar sua plenitude humana.

Que alimentemos, portanto, dentro de nosso coração, esta fé viva, forte e eficaz. Fé que se visibiliza no serviço por pura gratuidade; ou, segundo S. Paulo, a fé que se realiza  “pela prática do amor” (Gal. 5,3).

E Jesus ilustra isso com a pequena parábola do “simples servo”. Parábola dirigida àqueles que confiam em suas obras e exigem uma recompensa de Deus. Daí o perigo da soberba religiosa: comparar-se com os outros, colocando-se acima deles e fazendo-se o centro.

No Reino de Deus, somos todos servidores; nele não se trabalha por recompensa. Já é um privilégio podermos colaborar na obra o Senhor. A parábola revela que o trabalho a serviço do Senhor já é uma graça e a recompensa não pode ser exigida; ela é dom.

Não podemos fazer desse serviço uma “carreira”, com promoções, honrarias e prêmios. No mundo em que vivemos, a mínima prestação de serviço exige uma gratificação específica. Tudo tem um preço. Nossa mentalidade exclui todo espírito de serviço gratuito.

As “obras boas” não são um crédito que podemos apresentar a Deus; são, antes, a manifestação de que temos acolhido o amor de Deus e o manifestamos aos outros. Confiar em Deus é também incompatível com a confiança nos próprios méritos. Aqueles que passam a vida acumulando méritos não confiam em Deus, mas em si mesmos. A Salvação “por pontos” é totalmente contrário ao evangelho.
Há aqui o princípio ético que deve reger a conduta do cristão, diante de Deus e diante dos outros. É a atitude da inteira disponibilidade, a intensidade do compromisso, sem queixas, sem comparações e nem exigências. Uma ética e uma espiritualidade assim revelam um profundo e inexplicável humanismo.

Por isso, crer no Deus que “atua em tudo e em todos” implica estar sintonizado com Ele, trabalhando na mesma direção, fazendo as mesmas obras que Ele está fazendo para tornar este mundo mais habitável.

Cremos no “Deus que trabalha sempre” e em tudo nos associa, em comunhão com Ele, a seu trabalho constante de transformação deste mundo, na fronteira mesma onde se tece a novidade da história. Trabalho que se faz com amor;  “o trabalho é a fé que se faz visível”. Nesse sentido, “somos servidores e nada mais, fizemos o que devíamos fazer”.

Não está correta a tradução: “somos servos inúteis”. Se o servo fosse inútil, o senhor não lhe pediria serviço algum. Pelo contrário, ele é extremamente útil. Seu trabalho tem muito valor aos olhos do senhor. Mas o servidor não é nenhuma personalidade de destaque. Ele não está acima do senhor, Ele faz seu trabalho; é servidor, e nada mais. Mas serve.

Ao situar nosso trabalho cotidiano na linha da colaboração com a atividade criadora de Deus, do serviço à humanidade, da construção de um mundo fraterno..., isso nos ajuda a não convertê-lo em um mecanismo ou dinâmica de autocentramento, de busca exclusiva e muitos vezes compulsiva de nós mesmos e de nossos interesses e benefícios; ao mesmo tempo, nos faz evitar, em nosso modo de trabalhar, atitudes e ações de domínio, de manipulação, de cobrança dos outros...

São vários outros elementos que contribuem para fazer de nosso trabalho uma “experiência espiritual”:
a pureza de motivações (por que faço isso? para quem faço?), a capacidade de “contemplar”, a agilidade no “eleger”, o crescer em gratuidade e relativização de si mesmo, o deixar-se ajudar, a capacidade de agradecer.
A atitude de gratidão (consciência viva daquilo que cada dia recebemos e nos é dado) nos faz viver nosso trabalho como serviço e o liberta radicalmente de suas dimensões de rotina, de carga..., e o vai situando na linha de uma experiência profundamente “espiritual”: dupla experiência de agradecer e ajudar.

Quando vivemos nosso trabalho a partir da gratidão, o esforço que o mesmo trabalho exige brota de um modo mais natural, mais espontâneo...; por isso, “cansa” menos, “desgasta” menos... Se vivemos a partir da gratidão, ficamos menos “dependentes” da compensação que os outros poderiam dar à nossa entrega ou ao nosso serviço.

Encontramos aqui o fundamento para uma teologia do trabalho: o trabalho, seja ele qual for, é redentor, se a motivação é evangélica, se ele está orientado para o Reino. Não é o trabalho que nos faz importantes, mas somos nós que fazemos qualquer trabalho ser importante, quando ele é realizado na perspectiva do Reino de Deus. Todo trabalho é nobre, seja ele o de cinzelar estátuas ou o de esfregar o chão.

A alegria do trabalho está no fato de perceber o sentido e a intenção presentes nele. Afinal, somos chamados a “trabalhar na obra do Senhor”, somos seus “servidores”. A verdadeira “experiência espiritual ” é estabelecer com o “Deus da Vida” uma relação “desinteressada”, isto é, uma relação na e a partir da gratuidade; é passar do “Deus mérito” ao “Deus do dom”, do “Deus juiz” ao “Deus Pai-Mãe”, do “Deus ameaça” ao Deus de “bondade escandalosa” que nos  desafia a sermos criativos em sua obra. Daqui brota a dimensão contemplativa do trabalho, pois este passa a ser “templo” do encontro com Deus trabalhador e de colaboração com os outros.

Texto bíblico:  Lc 17,5-10

Na oração: Precisamos alimentar uma outra relação com o trabalho no sentido de assumi-lo como cooperação com o Deus trabalhador e com tantas pessoas tocadas pela sua graça. Uma relação que permita nos distanciar das cargas, ativismos, tarefas estressantes... e viver o trabalho com humor e criatividade.

* Seu trabalho cotidiano: ativismo ou “ação discernida”? Busca de recompensas ou espaço de colaboração com o Deus trabalhador?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI


Fonte: Catequese Hoje

27 de set. de 2013

Quando as parábolas tiram o véu de nossos olhos

Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava sentado à porta do rico”  (Lc 16,20)


Toda vez que Jesus tem uma coisa importante para comunicar, ele cria uma história e conta uma parábola. Sabemos que, em toda parábola, o ouvinte passa por uma transformação interior; ele se abre porque ela o fascina, e, sem que perceba, a narrativa o leva a outro nível. De repente, o ouvinte se sente envolvido na cena. Algum aspecto seu, que até então havia permanecido no escuro, é iluminado; agora é capaz de se ver de modo diferente.

Uma parábola “dá o que pensar”. Por isso, é importante prestar atenção até nos seus mínimos detalhes. Dizem os especialistas que, quando Jesus contava parábolas, apelava aos sentimentos mais primários de seus ouvintes (muitas vezes adversários) para fazê-los mudar. Assim, ao contar a parábola da ovelha perdida, do filho pródigo que retorna à casa, estaria dizendo aos seus adversários: “Vocês não sentem compaixão por essa pobre gente? Não sentem revirar suas entranhas?”.

Talvez ao contar a parábola do “rico e de Lázaro”, estaria nos dizendo: “Vocês não se envergonham de viver em um mundo assim, de ricos e de lázaros, de milionários e de famintos?... Se esta parábola não provoca em nós nenhum tipo de incômodo, se não desperta nossa vergonha, se não nos faz sentir afetados  pelo que ali há  de insulto ao pobre, se não nos mobiliza para uma superação desse escândalo..., é sinal que a desumanização chegou ao fundo do poço.



Na parábola do evangelho de hoje aparecem três personagens: o pobre Lázaro, o rico sem nome e o pai Abraão. De um lado, a riqueza agressiva. Do outro, o pobre sem recurso, sem direitos, coberto de úlceras, impuro, sem ninguém que o acolhe, a não ser os cachorros que lambem suas feridas. O que separa os dois é a porta fechada da casa do rico.

A coexistência de riqueza e pobreza é, em si mesma, ruptura fundamental da solidariedade humana, negação de humanidade; é uma flagrante violação da convivência humana, ou seja, da própria natureza do fundamento dos direitos humanos.

“O luxo de uns converte-se em insulto contra a miséria das grandes massas” (Puebla 28). O “rico e Lázaro” constituem um enorme escândalo em nosso mundo. É uma ofensa que se faz aos pobres pelo simples fato de serem indigentes ao lado de opulentos.

O foco para compreender o sentido da parábola é o pobre Lázaro, sentado à porta. Ele representa o grito calado dos pobres do tempo de Jesus e de todos os tempos. Deus vem até nós na pessoa do pobre, sentado à nossa porta, para nos ajudar a transpor o abismo intransponível que a riqueza criou.

A parábola é cheia de ironia. Para começar, o rico aparece sem “nome”: não ter nome naquela cultura era praticamente sinônimo de não existir; às vezes o rico é designado como “epulão”, mas é um adjetivo, que tem sua raiz no costume romano dos “épulos” ou banquetes; o pobre, pelo contrário, se chama “Lázaro”, ou seja, “Deus ajuda”. Ele tinha identidade; O rico era tão pobre que só tinha bens.

Com sua morte, o mendigo “é levado pelos anjos para o seio de Abraão”; o rico, pelo contrário, “morreu e foi enterrado”. O “seio de Abraão” é a fonte de vida, de onde nasceu o povo de Deus. Lázaro, o pobre, faz parte do povo de Abraão, do qual era excluído enquanto estava à porta do rico. O rico pensa ter fé e ser filho de Abraão; mas só há um jeito de estar com Abraão: abrir a porta ao necessitado. A salvação para o rico não é Lázaro trazer uma gota de água para refrescar-lhe a língua, mas é ele, o próprio rico, abrir a porta fechada para o pobre e, assim, transpor o grande abismo que os separa.

A chave de compreensão da parábola podemos encontrá-la justamente nesta expressão: “um grande abismo”. Um abismo que se revela não só após a morte, mas que ficara visível na indiferença do rico frente á presença do pobre à sua porta. Ele não tinha feito mal ao necessitado; simplesmente não o tinha visto. O rico não vê o pobre, não vê a Deus; não escuta o pobre, não escuta a Deus. Não está contra Deus , nem contra o pobre; unicamente está cego. A riqueza o cega e o impede de viver para o outro; a riqueza endurece seu coração e o torna insensível. Esse “não ver” (“olhos que não veem, coração que não sente”) é o que cria um abismo intransponível em nossas relações pessoais, em nossos países e em nosso mundo.

Por que caímos tão facilmente na indiferença? A indiferença diante dos outros e diante do mundo, esconde, sem dúvida, uma maior ou menor insensibilidade. Uma sensibilidade bloqueada ou endurecida isola a pessoa, deixa-a encapsulada em sua própria armadura egocêntrica e a instala em uma atitude indiferente – oposta à compaixão -, que está na origem das injustiças que diariamente vemos em nosso mundo. Em sua redoma protetora, o rico não vê os outros a não ser quando necessita deles, considerando-os como se fossem “objetos” a seu serviço; sua capacidade de amar fica bloqueada.

A compaixão é o sinal mais claro da maturidade humana; a indiferença, pelo contrário, revela  imaturidade e atrofia nossa humanidade. A vivência da compaixão requer uma sensibilidade limpa e uma afetividade livre. Tanto o endurecimento (ou petrificação) da sensibilidade como o bloqueio afetivo impedem sentir-com-os-outros.

A conclusão de tudo isso parece clara. Para viver a compaixão, precisamos, antes de mais nada, despertar nossa sensibilidade diante dos outros, sobretudo aqueles que estão à nossa porta e não os vemos.

A cegueira diante dos outros, sintoma de uma sensibilidade rígida ou congelada, torna impossível a compaixão. Precisamos restabelecer o contato com nossos sentimentos; despertada nossa capacidade de sentir, poderemos depois sentir-com-os-outros, ou seja, experimentar compaixão.

A transformação do coração exige uma renovação de nossa sensibilidade. O discípulo de Cristo, com sua sensibilidade cristificada, não fugirá da realidade das pessoas e da natureza, mas se relacionará com elas, buscando também nelas a presença de Deus. Nesse sentido, a sensibilidade cristificada é o motor da nossa vida e da nossa conduta. E os “abismos” serão superados.

Portanto, mediante uma acolhida contemplativa da Parábola, vamos transfigurando nossos sentidos e convertendo nossa sensibilidade, para aproximar-nos da realidade como Jesus se aproximava, com uma sensibilidade cada dia mais parecida com a d’Ele.  À medida que vai se realizando esta conversão de nossa sensibilidade, nós nos fazemos capazes de nos fazer presentes junto aos mais necessitados à maneira de Jesus de Nazaré, abrindo a porta de nossa casas para acolhê-los.

Texto bíblico:  Lc 16,19-31

Na oração: diante do mundo da exclusão e da miséria, quê sentimentos prevalecem: indiferença, compaixão, insensibilidade, espírito solidário...?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI

Fonte: Catequese Hoje

16 de set. de 2013

"Quem é o Senhor que move o meu coração?"


“Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13)


Estamos diante de mais uma parábola "escandalosa" de Jesus, ou seja, um relato impactante e provocativo, que ajuda a “despertar” o ouvinte ou o leitor. Mas o que se trata na parábola não é da injustiça cometida nem da desonestidade do administrador, senão de sua astúcia. O objeto de louvor por parte de Jesus é a esperteza, a audácia e o empenho com que o administrador tira partido de uma situação presente tendo em vista garantir o futuro; Jesus elogia o administrador não porque roubou, mas porque teve presença de espírito, soube calcular bem as coisas e encontrar uma saída honrosa, enquanto havia tempo. E a “saída” do administrador, ameaçado de desemprego, foi fazer “amigos” para depois.

Não devemos imitá-lo na sua injustiça, mas na sua previdência. O administrador infiel é um filho deste mundo; deixa-se guiar pelo cuidado de sua existência terrena. Com esperteza, com decisão e sem escrúpulos, aproveita o que lhe pode proporcionar vantagem para garantir sua vida futura.

E é aqui onde encontramos a chave de compreensão do relato: como “filhos da luz” precisamos agir de um modo inteligente, utilizando todos os recursos em favor da vida. Quem são nossos “amigos para de-pois”? São os cegos, os excluídos, os pobres em geral. Temos amplas oportunidades de usar o “vil dinheiro” para conquistar estes amigos.  Essa Vida não é outra coisa que as “moradas eternas” de que fala o texto.

A parábola e as sentenças a seguir trazem à tona a questão da riqueza no caminho espiritual, com um destaque fundamental: diante do risco de absolutizá-la (endeusá-la), requer-se lucidez (astúcia) para usá-la como instrumento a serviço da vida. O risco é grande e tem uma dupla fonte: a necessidade de segurança e o caráter vazio do ego. Na realidade, as pessoas não buscam o dinheiro, mas a sensação de segurança associada a ele. Porque podemos prescindir do dinheiro, mas não da segurança. Ora, enquanto busquemos a segurança no “ego inflado”  será impossível alcançá-la. Porque o ego é vazio, essencialmente inconsistente e, por isso mesmo, radicalmente incapaz de sustentar-nos. Absolutizar o dinheiro é sintoma de permanecer identificados com o ego e fechados na ignorância.



O mais característico do ego é dizer “meu”. E onde se diz “isto é meu”, a visão se estreita e o comportamento se faz ego-centrado. A divinização do dinheiro não é nada mais que a divinização do ego. Desde que o primeiro ser humano da história disse “isto é meu”, fez surgir a rivalidade entre os homens e a luta por ter. O dinheiro representa a capacidade de ter coisas. Mais dinheiro, mais coisas, até que a ânsia de ter coisas se converte em uma dependência doentia (vício). É possível que esta seja a dependência mais antiga da humanidade (“afeição desordenada”). Ela é a origem das guerras, ódios, vinganças, violências, roubos, enganos, mentiras, abusos, injustiças, dominação sobre os outros, etc.

Assim chegamos a classificar os seres humanos em duas categorias: ricos e pobres. Mais ainda, temos associado a felicidade com o ter. Consideramos feliz quem tem, e quem não tem é um infeliz. O ter se converteu, sobretudo nesta sociedade de consumo, em um princípio categórico de vida. Isto nos conduziu a uma desigualdade, cada dia mais escandalosa, tanto no nível pessoal como social, o qual faz crescer as fontes de conflitos de todo tipo. Com a passagem dos anos comprovamos como, longe de alcançar mais igualdade e mais equilíbrio social e pessoal, acontece justamente o contrário.

Sem reverter esta tendência é impossível construir um mundo em equilíbrio onde haja um mínimo de justiça, de paz verdadeira, de igualdade e de direitos humanos básicos para todos os habitantes do planeta.

Quando nossa verdadeira identidade se expande em direção ao outro (eu oblativo), perceberemos o engano de etiquetar algo como “meu” e nos capacitaremos para usar o dinheiro a serviço de todos. “Viver mais simplesmente para que outros possam, simplesmente, viver”. Desse modo, na linguagem da parábola, o “dinheiro injusto” se converte em meio para “ganhar amigos” e ser recebidos nas “moradas eternas”. Porque “eternidade” não faz referência a um futuro projetado indefinidamente. A Vida eterna é a vida plena que experimentamos, aqui e agora, como Presença.

Jesus via muito claramente qual era o verdadeiro futuro para a humanidade, e por isso apela aos seus seguidores para que evitem todo tipo de cobiça; “não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Na sua perspectiva, há uma incompatibilidade radical entre a paixão pelas riquezas e a paixão pelo Reino. Não é possível amar a Deus, isto é, amar a generosidade, a entrega, a solidariedade, a compaixão, a misericórdia, e ao mesmo tempo amar o dinheiro, isto é, amar ou tomar tudo para si, a acumulação que é base de toda injustiça e de todo desamor: fome, violência, exclusão, exploração...

A fidelidade ao Deus único fica interditada e o seguimento de Cristo fica fragilizado. Aquele que centra sua vida no apego ao dinheiro, põe ali seu coração, seu interesse, sua força e sua afetividade. O dinheiro tem um tal poder de atração que ele se torna rival de Deus. Como todo ídolo, o dinheiro provoca o fascínio, a adoração e as identificações mais perniciosas. O apego aos “bens” apresenta-se como uma das tentações mais poderosas para todo seguidor de Jesus. O dinheiro satisfaz desejos, dá segurança, confere prestígio, seguramente fama e, acima de tudo, abre portas, soluciona problemas e concede poder.

Sabemos das conseqüências que a sedução do dinheiro exerce e da capacidade que ele tem de obscurecer e distorcer percepção correta da realidade. A afeição ao dinheiro gera autossuficiência e distorce o sentido criatural do ser humano. A pessoa movida pela ânsia do dinheiro e fundamentada nele, não necessita da mão amorosa e providente de Deus. O dinheiro é o suporte de suas seguranças e autossuficiências.

O dinheiro distorce a visão do ser humano sobre si mesmo e sobre as demais coisas criadas. A pessoa deixa de entender-se como dom de Deus, não percebe mais a sua vida como graça recebida; portanto, já não é mais capaz de reconhecer a presença e a atuação de Deus, que a sustenta a cada instante. Deus não é reconhecido como o Senhor que a cuida através de Seu amor providente. O dinheiro também distorce a percepção das outras pessoas, pois fecha o coração à generosidade. O desejo de dinheiro é competitivo, pois é satisfeito à custa da exploração de outras pessoas.

Enfim, o dinheiro só perde seu poder maléfico quando, quem o possui, exerce o senhorio de si e o coloca no fluxo da dinâmica do amor, ou seja, na dinâmica da partilha, da comunhão com os demais, especialmente com os que menos tem. E a vida não se ordena enquanto o fator dinheiro, desestabilizador por seu caráter acumulativo e competitivo, não se situa no seu devido lugar. Assim fazendo, ele perde sua condição de senhor, e os bens e posses voltam a ser o que sempre foram: meios para colaborar a que o ser humano atinja a meta de sua vida.

Quando a força do Evangelho possibilita esta consciência, produz-se o saneamento libertador das relações distorcidas e desordenadas para com o dinheiro, e a orientação fundamental da vida passa da “posse” à entrega, do autocentramento à solidariedade, da acumulação ao serviço desinteressado...

Textos bíblicos:  Lc 16,1-13

Na oração:   
-Meu compromisso com o Reino afeta meu “bolso”?
-Sei e sinto a força de sedução que o dinheiro exerce e da capacidade que ele tem de atrofiar minha sensibilidade diante da realidade e dos outros?


Pe. Adroaldo Palaoro sj
Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana – CEI


Fonte: Catequese Hoje

11 de set. de 2013

Homilia do 24º. Domingo do Tempo Comum – Ano C



Lucas, o evangelista da misericórdia, insiste em mostrar a gratuidade de Deus para com os pagãos e pecadores, fazendo a misericórdia triunfar sobre a justiça. No capítulo 15 de seu evangelho, Jesus conta três parábolas de misericórdia. Para quem Jesus as contou? Não as contou para converter os pecadores, mas para dar uma lição àqueles que se consideravam justos. Enquanto as pessoas de má vida vinham até Jesus para escutá-lo, os doutores da religião da época o desprezavam. Jesus era questionado porque partilhava a refeição com pecadores: “recebe pessoas de má vida!” Os que se consideravam puros questionavam a atitude de Jesus. São estes os principais destinatários das parábolas de misericórdia. Entre as parábolas, merece destaque a parábola do Pai misericordioso. Destaco na reflexão a atitude de cada personagem da parábola.

O filho mais novo é o símbolo do pecador, que não se contentando em estar na casa do Pai, pede a sua parte na herança. Mesmo a herança só podendo ser dividida com a morte do Pai, o mesmo a entrega para o seu filho que irá esbanjar todos os bens recebidos. Tinha ele o sonho de autonomia, de liberdade, de felicidade longe da casa do pai. Tudo isso não passava de ilusão. O pecado, portanto, é o mau uso da herança e da liberdade (falsa liberdade), é o afastamento da casa paterna. Da distância do Pai veem as consequências: esbanjando tudo o que tinha, come as lavagens dos porcos e cai em si mesmo: “Quantos empregados do meu Pai têm pão com fartura? Vou voltar...” Reconhecer o pecado, ponto de partida: “... a mim, que antes blasfemava, perseguia e insultava. Mas encontrei misericórdia...” (Tt 1,13). O filho pródigo dá o passo fundamental: reconhece o seu pecado, reconhece as perdas de sua vida, é humilde para reconhecer, sente a falta da casa do Pai, propõe a si mesmo um retorno humilde, sem merecimentos.

O Pai misericordioso reflete a atitude de Jesus, que come e bebe com os pecadores. O Pai fica esperando o seu filho. Talvez não acreditasse mais na sua vinda com tanta confiança, mas o espera, pois Deus nunca se esquece do seu filho. Quando o vê se adianta, movido de compaixão, se lança ao pescoço de seu filho. Não deixa o filho completar o discurso, pois as palavras não cabem em sua misericórdia. Apressa-se em trazer o novilho para a festa da comunhão, em devolver a dignidade com as sandálias, em evidenciar a filiação trazendo-lhe um anel ao dedo. O Pai não quer castigar, nem repreender. Ama com gratuidade e, por isso, não faz discurso sobre os pecados de seu filho, apenas mostra todo o seu amor, toda a sua misericórdia, que se traduz em afeto, em carinho.

A atitude do filho mais velho é a mais interessante para uma reflexão. Aqui se encontra o ensinamento de Jesus aos seus interlocutores (fariseus e escribas). A imagem do filho mais velho ilustra bem a atitude do hipócrita, daquele que não se alegra pelo pecador que volta para casa. Aquele que nunca fez festa com o pai, não compreende a festa do filho mais novo que reconheceu a grandeza da misericórdia de Deus. É a imagem daqueles que nunca saem da Igreja devem estar atentos para não deixar de desfrutar da festa de Deus, da alegria de ser cristão, desprezando aqueles que experimentam o Deus de amor e bondade. Este filho rancoroso se considera puro e perfeito: “Eu jamais desobedeci a qualquer ordem tua”. É o risco de um cristianismo de normas que só serve para trazer o alívio para a consciência. A atitude farisaica do cumprimento fiel é ainda muito frequente: os que se consideram puros estão tão preocupados com sua santidade que não tem energia para fazer o bem a comunidade e a sociedade. Santos que não deixam os pecadores se aproximar, que estão prontos para julgar, para apontar o dedo, para excluir. Numa comunidade farisaica não há espaço para os novos, para os jovens, para os convertidos, para novos agentes de pastoral. São estes os filhos que esbanjaram tudo, que não merecem a alegria da festa. Festa esta que nem sempre faz parte da alegria de quem se considera melhor do que os demais.

Jesus nos ensina a lição da gratuidade, da misericórdia, da superação dos julgamentos. Ensina a verdadeira imagem de Deus, ensina o caminho de quem se extravia e tem a graça de retornar à casa paterna. Jesus nos ensina a sermos misericordiosos, pois seria muito triste experimentarmos a graça do amor e da alegria, a bondade acolhedora de Deus e, depois, tornarmo-nos duros e exigentes em relação aos irmãos.


Que paradoxo... Os pecadores encontram a Deus, enquanto os justos ainda estão o procurando. Os entendidos em religião não o acolhem, mas as prostitutas e ladrões são tocados pelo seu amor. Eu e você somos convidados a fazer a festa no banquete da misericórdia.



Pe. Roberto Nentwig

Fonte: Blog Catequese e Bíblia

17 de abr. de 2012

Lc 24, 35-48 "Sou Eu Mesmo! Tocai em Mim e Vede"


      Antes de fazermos a segunda leitura do Evangelho vamos ver o contexto onde ele se encontra. Vamos examinar todo o capítulo 24. Começa com uma pequena narração da ressurreição, onde as mulheres vão perfumar o corpo de Cristo e Ele não estava mais lá no sepulcro. Em seguida Pedro vai até lá e o anjo anuncia que Jesus ressuscitou. Logo após temos a narração dos discípulos de Emaús, que andavam tristes e Jesus ia conversando com eles, mas eles não percebiam que era o Cristo. Apenas quando Ele partiu o pão, o que é esse partir o pão? É a Eucaristia. Só após a Eucaristia foi que eles reconheceram Jesus e foram para Jerusalém, mas eles foram devagar? Pegaram o ônibus para Jerusalém? Não, saíram chutados mesmo, tão rápido que chegaram lá em aproximadamente uma hora, sendo que eram 40 e poucos quilômetros de distância. Mas eles tinham de anunciar de pressa. E as únicas palavras eram Ele está vivo, é o que todas as testemunhas disseram: Ele está vivo!

E como tinham reconhecido Cristo no partir do pão, nós também assim como os discípulos temos de conhecer Jesus na Eucaristia, e também assim como eles, sair correndo para anunciar o que vimos e testemunhamos. O Seu amor.

Quando Cristo diz “a paz esteja convosco” Ele esta anunciando a sua chegada, porqe Ele é a própria paz. A verdadeira, e única Paz.
     
      Lucas nos narra que os discípulos estão com medo diante do ressuscitado, pensando ver um fantasma. Jesus insiste: “Sou eu mesmo! Tocai em mim!” Mas, diante da surpresa e perplexidade dos discípulos ele precisa pedir comida. Um fantasma não come. Para se fazer conhecer, Jesus pede algo para comer. Se alguém duvida, ai está a grande prova de sua presença. Na experiência do “comer juntos”, os discípulos o reconhecem.

A liturgia deste domingo repete aquela cena em quem cada cristão gostaria de ter vivido. Cena que cada um de nós gostaria de ter estado presente naquele lugar onde os discípulos por duas vezes viram a pessoa de Cristo  ressuscitado aparecer de repente no meio deles. Uma prova histórica da sua ressurreição e da sua divindade.
    
      “O que está escrito é que o Messias tinha de sofrer e no terceiro dia ressuscitar. E que, em nome dele, a mensagem sobre o arrependimento e o perdão dos pecados seria anunciada a todas as nações, começando em Jerusalém. Vocês são testemunhas dessas coisas.
     
       Sim. Nós somos testemunhas dessas coisas como se as  tivéssemos presenciado com nossos próprios olhos. Nós acreditamos mesmo sem ter visto o ressuscitado antes e depois. 
      
      Porque era preciso que o Cristo padecesse? Era preciso? Porque há tanto sofrimento no mundo? É preciso mesmo? Que nova luz o Evangelho deste domingo nos traz?
     
      O motivo pelo qual “era preciso”  que o Cristo padecesse não é o desejo de Deus, mas o respeito à liberdade humana.
     
      O Deus em que cremos não quer que o coração humano o acolha à força, não quer que o amor seja vivido sob pressão, o Deus em que cremos continua amando mesmo quando nosso coração de pedra se fecha ao seu amor e mata seu filho amado...
     
      Era preciso que no início do século XXI tantos inocentes morressem em guerras cujo centro é a sede de poder econômico? Era preciso que tantas crianças ficassem órfãs nas guerras nacionais e internacionais num tempo como o nosso em que se conhece o caminho da paz? Não, não era, e nem é preciso.

À luz das Escrituras quase ousamos dizer que sim... sim, porque Deus não muda o curso da história, mas teimosamente ressuscita as vítimas desta história fazendo dos sobreviventes suas testemunhas...
     
      Mais uma vez o Ressuscitado vem ao nosso encontro na celebração dominical, para nos abrir a inteligência e se fazer pão para nós, mais uma vez ele nos desafia a anunciar que ainda que, aparentemente forças de morte pareçam vencer o justo e eliminá-lo, a Vida ainda é a última palavra: e disso nós somos testemunhas.

Nesta semana somos desafiados a ler com um novo olhar as notícias, a contemplar os pequenos sinais da vitória da vida que não estão publicados em manchetes de jornais mas que sinalizam que Cristo ressuscitou.
     
      Na liturgia de hoje a expressão: “Era preciso...” continua a ecoar em nossos corações como este convite à conversão. Homens e mulheres cristãos, que iniciamos este tempo novo que é o século XXI, somos desafiados a um testemunho que leve à conversão, somos desafiados a anunciar que a vida vence a morte por causa do amor de nosso Deus que teimosamente insiste em se fazer pão para nós, em nos unir em pequenas ou grandes comunidades de fé, em chamar novos discípulos para seu Reino, em dizer mais uma vez nesta celebração: “A Paz esteja convosco!”.
     
      Sim, somos testemunhas de que não é apesar da morte de Jesus crucificado que a vida vence a morte, mas a partir do amor de Deus que vence a força desta morte e nos faz testemunhas da vida.